22 dezembro 2011

ISMÁLIA (Alphonsos de Guimarães)

Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar...
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar...

No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar...
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar...

E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar...
Estava perto do céu,
Estava longe do mar...

E como um anjo pendeu
As asas para voar...
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar...

As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par...
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar...


Num contexto médico ou psicológico, quando se diz que alguém enlouqueceu, está-se afirmando que essa pessoa desenvolveu uma doença psiquiátrica que a priva do uso da razão.

Mas o verbo enlouquecer também faz parte do vocabulário cotidiano e carrega em si uma representação do senso comum distante do contexto clínico, na medida em que é empregado para nomear atitudes que parecem estranhas, incomuns, insensatas e excentricas.

O poema Ismália, de Alphonsos Guimaraens, em seu primeiro verso, grafa a palavra enlouqueceu e nos apresenta possibilidade dual quanto ao seu significado: Ismália teria entrado em surto e se suicidado por conta de delírios ou teria perdido o equilíbrio emocional momentaneamente, conduzindo-a a tal desfecho?

Muitas análises podem ser feitas a partir de enfoques litrários, filosóficos, gramaticais, etc. Aqui, desejamos utilizar o poema como um estímulo para reflexão pessoal, livrando o leitor da preocupação de fazer uma análise "formal", "correta" ou "errada".

Para isso, sugerimos algumas perguntas que poderão figurar como roteiro para uma análise pessoal de atitudes cotidianas:

1- Qual é a sua definição da palavra ENLOUQUECER? (Não vale a definição do dicionário!)
2- De que maneiras podemos "enlouquecer"?
3- Quantas vezes você interpreta imagens opostas mantendo um só ponto de vista?
4- Como saber em qual imagem acreditar?
5- Quanto você deseja coisas que estão fora da sua realidade?
6- Querer duas coisas ao mesmo tempo, muitas vezes nos obriga a fazer escolhas, e toda escolha implica numa renúncia. Como você lida com essa verdade?
7- Quanto você valoriza suas conquistas?
8- Quanto você alimenta o amargo de suas derrotas?
9- Quais atitudes você tomou na vida que foram rotuladas como "loucura"?
10- Como você reagiu à crítica dos outros?

Ficam essas indagações para você refletir a respeito dos seus desejos, metas, conquistas e frustrações. O momento é propício, pois estamos encerrando o ano e um novo tempo se anuncia, trazendo a possibilidade de mudanças.


A Equipe do EDH – Espaço de Desenvolvimento Humano
aproveita o momento para desejar a todos Boas Festas!


Marcelo Lovato Penna
Psicólogo Equipe EDH

08 dezembro 2011

Síndrome de Otelo

Por volta de 1603, William Shakespeare escreveu a peça “Otelo – O Mouro de Veneza”, um texto que se tornou um grande clássico da literatura universal que em 1995 ganhou formato cinematográfico.

O ciúme patológico também é conhecido pelo nome de Síndrome de Otelo, recebeu esse nome em referência ao texto de Shakespeare. Nessa história trágica, o personagem Otelo foi induzido por seu alferes Iago a duvidar da fidelidade de sua esposa Desdêmona junto com seu amigo Cássio. Quando Otelo fica totalmente dominado pelo ciúme que sentia pela esposa, acreditando que ela o traía com seu amigo, ele a mata, sem desconfiar que estivesse sendo vítima dos planos de Iago.

Não há como medir a diferença entre o ciúme considerado normal e o ciúme patológico, isso torna mais complicado definir até que ponto o ciúme é ou não saudável. Porém, um fator considerável que sinaliza o quanto o ciúme já ultrapassou os limites do bom senso é o sofrimento do casal.

Algumas características ajudam a identificar se um indivíduo está ou não sendo vítima dessa síndrome. A pessoa está sempre fazendo interpretações distorcidas da realidade, por isso não consegue provar concretamente nenhuma suspeita, não há explicações racionais para justificar a suspeita de infidelidade do parceiro, sente que o relacionamento está sendo ameaçado constantemente, teme perder o parceiro para uma terceira pessoa, sua vida é prejudicada por seus próprios pensamentos, emoções e comportamentos extremos.

Dentre esses comportamentos estão, por exemplo, examinar bolsos, ler e-mails, ouvir conversas no telefone, vasculhar a carteira, seguir a pessoa, contratar detetive particular, telefonar e interrogar constantemente, proibir o uso de algumas roupas, não deixar que o parceiro saia sozinho, exigir que se afaste de algumas pessoas, etc. Porém, mesmo com todos esses comportamentos, o provável é que não encontrem alívio para o sofrimento intenso de ambos, ao contrário, tudo isso contribui para destruir aos poucos a harmonia do relacionamento.

A pessoa portadora do ciúme patológico realmente acredita na infidelidade do parceiro, para ela é real, mas como não consegue comprovar o fato, isso lhe causa muito sofrimento, principalmente porque o parceiro além de negar a existência de uma terceira pessoa, também verbaliza que o outro está inventando coisas que não existem.

Por isso, o ciúme patológico é um delírio, que tem sua limitação apenas no parceiro quanto sua fidelidade. Existe a possibilidade de agressão física e psicológica com seus parceiros e com outras pessoas que acreditam existir algum tipo de envolvimento com eles.

Um outro fator importante é que a pessoa com a Síndrome de Otelo duvida do amor que o parceiro sente por ela, não se sente amada, valorizada ou importante para o parceiro, problemas com a auto-estima são evidentes. Com isso, estar em um relacionamento como este é significativamente penoso, pois as brigas, cobranças, justificativas e ameaças são presentes e desgastantes. Nesse momento, sem a ajuda de um profissional terapeuta e psiquiatra fica difícil o entendimento do problema que é tratável e tem uma grande possibilidade de melhora.

Link do trailer do filme, dirigido por Oliver Parker (1995):

 Josiane Marques de Souza
Psicóloga Equipe EDH