23 fevereiro 2012

O carnaval e suas fantasias

“Carnaval, fantasias, máscaras, muita euforia
Com o bloco da alegria, liberando emoções,
solto as amarras da vida entrando nesta folia no meio da multidão
Quero pular, suar, amar, cantar, cansar, liberdade total...
Esquecer dos desenganos que entristeceram minha vida...
E, depois de tanto sambar, me soltando em plena avenida,
queimo na quarta feira de cinzas as máculas do meu coração”.
(Neli Neto)

A origem da palavra carnaval tem duas versões: a primeira atribui à palavra a uma origem religiosa, do latim carnevale (carne+vale = carne+adeus), e seria a designação da "Terça-Feira Gorda", que é o último dia do calendário cristão em que é permitido comer carne, uma vez que, no dia seguinte, inicia-se a Quaresma. Já a segunda versão diz que a palavra carnaval vem de Carrus Navalis, por influência das festas em honra de Dionísio (deus do vinho), onde um carro com um enorme tonel distribuia vinho ao povo na Roma antiga.

Hoje, o carnaval é um palco global multicultural onde as pessoas se permitem liberar fantasias, desejos e necessidades sem passarem pelo crivo da censura moral, social ou religiosa.

Na Roma antiga faziam-se grandes festas populares e os nobres participavam também. Mas para não serem reconhecidos, mascaravam-se. Não tão diferente de hoje: continuamos usando máscaras moldadas nos discursos políticos, religiosos, educacionais, empresariais e sociais. A pressão coletiva nos atinge fortemente e muitos adoecem do corpo ou da mente. Uma saída é viver momentos como o carnaval ao máximo; onde a emoção, a alegria (e por vezes o excesso de álcool) deixa nossa consciência mais frouxa, sem a censura da sociedade. Desta forma, movimentos, atitudes, palavras, coreografias e refrões que, em outras circunstâncias, acharíamos inconvenientes ou impensáveis tornam-se irresistíveis. É como se ocorresse uma catarse, ou seja: uma liberação de emoções que faz nos sentirmos bem.

É o passe-livre para a liberação de fantasias, exibicionismos; é externar as emoções mais reprimidas: medos, raivas e desejos. É necessário e saudável livrar-se desses problemas, traumas, angústias e o carnaval pode ser útil para isso: pode ser uma poderosa válvula de escape, pois o fantasiar-se no carnaval é usar uma roupa, aparentemente absurda, mas que o desejo autoriza, pede para ser expresso. Podemos dizer que a fantasia funciona como uma via de expressão para satisfação de desejos absurdos e/ou incompreensíveis.

O mundo interno do homem é um mundo rico em fantasias e desejos, de objetos simbólicos. Nossas mais antigas tradições sempre representaram o mundo interno do ser humano através da dança, dos cultos sagrados, das pinturas, da escrita, enfim, das mais diversas manifestações culturais. As fantasias estão no campo do simbólico, fazem parte de uma manifestação humana acerca de seu meio.

O carnaval mostra fantasias de todos os tipos: das mais loucas e absurdas às mais criativas e necessárias. Através das máscaras e roupas confeccionadas (com ou sem requinte) podemos retirar por alguns dias nossas máscaras sociais coladas não só no rosto, mas na alma.

Mas, então, não é normal ter/usar fantasias? É, é absolutamente normal! Você pode fantasiar (e se fantasiar) o que desejar, é uma criação sua. Você pode entrar e sair dela quando quiser e não é obrigado a realizá-la. A questão quanto à normalidade é uma questão de envolvimento: o quanto à fantasia está preenchendo sua vida ao invés da realidade?

A fantasia (carnavalesca ou não) se torna um problema quando esta pode estar dependente de uma ilusão e a ilusão é o engano dos sentidos; é o engano da inteligência. Portanto, sendo um folião ou não, atente-se às suas fantasias, à mensagem que você passa com ela ao mundo e, principalmente, o que ela quer dizer para você!


Gisele Rodrigues Bezerra
Psicóloga Equipe EDH

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