Nesta atualização do blog, quero falar um
pouco sobre o conceito de compulsão alimentar através do e compartilhar uma das
visões que a psicologia análitica de C.G. Jung propõe.
A compulsão alimentar é um
transtorno caracterizado por comportamentos recorrentes e está associado à
perda do controle no consumo da comida. Quando pensamos em compulsão alimentar
ou comer compulsivo, estamos nos referindo à pessoa que come grande quantidade
de alimentos rapidamente, perde o controle e não consegue interromper a
refeição mesmo quando se sente estufada ou plenamente saciada. Para
caracterizar esse comer como doença é preciso que ocorra pelo menos duas vezes
por semana. A compulsão alimentar pode ocorrer em pessoas de qualquer sexo,
raça, idade ou posição socioeconômica.
Segundo o Manual Diagnóstico e
Estatístico dos Transtornos Mentais (DSM-IV) Os Transtornos Alimentares são
nomeados em três categorias:
Anorexia
Nervosa: recusa do alimento devido à imagem distorcida corpórea, a
pessoa tema percepção de estar além de seu peso, medo intenso de engordar, e
entra em dietas drásticas, chegando a desnutrição de seu corpo.
Bulimia
Nervosa: episódios de compulsão alimentar, seguidos de métodos
compensatórios para a prevenção do aumento de peso. Estes métodos são a indução
do vomito, ingestão de laxantes, diuréticos, exercícios em excesso.
Transtorno
de Compulsão Alimentar Periódica: episódios de compulsão alimentar,
associados a sintomas específicos relativos à perda de controle alimentar
seguidos de angústias relativo ao comportamento alimentar. Na compulsão
alimentar periódica não a eliminação do conteúdo.
O pensamento analítico tem como
base o indivíduo como o todo, sua abordagem trata o desenvolvimento das funções
psíquicas do indivíduo e tudo o que a ela esta relacionando, seja
biologicamente, culturalmente, socialmente, psicológicamente, etc.. O
desenvolvimento do indivíduo está diretamente ligado em suas relações sociais e
experiências vividas, experiências estas que podem ser positiva ou negativa,
ativando todos os mecanismos envolvidos na psique e no Self, afetando tanto o
mental como o corpo físico, criando defesas para combater os sintomas
apresentados, geralmente, inconscientemente. Uma dessas defesas é a projeção e
a compensação para melhor lidar com estes conflitos internos. Uma das formas de
compensação é eleger um “objeto de prazer” projetando suas dificuldades em
lidar com si mesmo. Cada indivíduo adquirirá um objeto, podendo eles ser a
comida, sexo, compras, álcool, etc., podendo desenvolver as dependências, abusos
e compulsões.
E é com o enfoque mente e corpo
que desenvolveremos a visão que a psicologia analítica nos trás sobre os
transtornos alimentares.
Ao nascermos criamos a
necessidade de desenvolver uma consciência corporal, que inicialmente está
intimamente relacionada aos cuidados básicos da mãe (cuidadora) e se isso não
ocorrer o indivíduo não desenvolverá a conscientização corpórea (sua imagem
como um todo), ativando complexos e levando-o ao distanciamento de seu self,
sua alma, sua essência. Desta forma, criando um vazio interior que necessita
ser preenchido com algo ou alguma coisa, “objeto”, podendo desenvolver diversos
tipos de compulsões e dependências para suprir esta carência de si próprias.
Temos uma imagem arquetípica da
grande mãe cuidadora, que será desenvolvida ao longo de nossas vidas, mas os
primeiros cuidados básicos serão marcantes para a vida do bebê/criança. No caso
da compulsão alimentar, se a mãe não for capaz de reconhecer o seu corpo e
feminilidade, consequentemente não conseguirá se amar como seres femininos
completos e não transmitiram o amor necessário aos seus filhos, gerando um
grande medo profundo inconsciente nestes primeiros momentos da vida da criança.
Desta forma, este afeto e
carinho não transmitido pela mãe pode se transformar na figura simbólica da
comida, levando a anorexa rejeitar a comida e a bulímica a socar a comida
“goela abaixo” em atitudes desesperadoras na busca de aceitação ou rejeição
desta mãe.
Com a ingestão ou a falta do
alimento/comida, o corpo projeta na estrutura física as consequências pelo ato
compulsivo, mostrando, claramente, sinais de advertência que algo não está
correto, já que a pessoa não consegue perceber as alterações psíquicas que vem
ocorrendo em seu processo de desenvolvimento. Assim, o corpo envia sinais de
advertências que devem ser ouvidos e obedecidos e não ignorados. O corpo nos
protege e nos guia aos mostrar estes sinais e sintomas nos levando a uma
tentativa de religação com nós mesmos, com a alma/essência perdida.
A criança, em seu desenvolvimento
inicial expressa toda a sua naturalidade criativa de expressão, é sua alma
expressando a sua vida plena e total. Com o decorrer do desenvolvimento esta
naturalidade acaba sendo silenciada pelas imposições inconscientes dos pais, da
sociedade que já estão “adoecidos”, pois não se consegue perceber esta
expressão. Assim a criança se torna um adulto faminto e vazio, buscando algo
para preencher este buraco através de objetos simbólicos, como a comida,
compras, sexo, álcool, etc. Criando uma rejeição profunda de si e do corpo.
Também a grandes exposições da
criança a valores sociais como ter bom emprego, ter estabilidade, ser bom
esposa/esposa, ser bons pais, etc., desta forma fazendo que o ser humano corra
e corra indiscriminadamente atrás destes objetivos, e isto, pode se tornar algo
compulsivo transmitido a criança, se vendo responsável em realizar os mesmos
padrões de comportamento, buscando aprovações exteriores.
Ao chegarmos a idade adulta
desenvolvemos está mesma correria frenética aos valores transmitidos que acaba
nos servindo para afastar do trágico medo de não sermos amados, causando grande
terror interior que nos leva a comportamentos autodestrutivos. Desta maneira, o
adulto cresce acreditando que o exterior é o mais importante e passa a buscar o
amor externamente esquecendo-se de amar a si mesmo, desenvolvendo a sensação de
ser necessário agradar ao outro e esquecendo de si. Woodmaan (2003) afirma isto
quando diz que:
“O processo de crescer se torna um exercício de
adivinhação de como agradar os outros, em vez de uma expansão por meio de
experiências. Não há crescimento sem sentimentos autênticos. As crianças que
não são amadas em seu próprio ser não sabem como se amar. Quando se tornam
adultos, têm de aprender a alimentar sua criança perdida, a ser a sua própria
mãe.”
E como alimentar esta criança
perdida? Uma das formas é desenvolvendo a compulsão alimentar, comendo e
comendo suprindo a nutrição da alma, fantasiosamente, gerando sintomas que
causam o distanciamento do corpo e de si mesmo, instigando uma ira íntima que
se não compreendida e transformada acumula de geração a geração.
Sendo assim, é necessário que
este adulto com a compulsão resgate em seu interior, a criança que foi calada,
recuperando a sua alma e se responsabilizando pela sua própria vida de modo
criativo e espontâneo, fugindo assim do vazio e criando real sentimento de
pertencimento. Mas este não é um processo fácil de ser reconhecido e
transformado, é necessário que haja o reconhecimento do que o faz se ligar a
este objeto de compensação (a comida), trabalhar sentimentos de frustações,
autocrítica e auto avalição como forma de prevenir o comportamento compulsivo e
consiga realizar o seu processo de individuação.
Alguns
conceitos Junguianos:
Complexo: imagem
de qualquer experiência que provocará uma reação fortíssima, com força própria,
que pode atuar de modo arrebatador e intenso no controle de nossos pensamentos
e comportamentos.
Imagem Arquetípica: são imagens universaism ou imagens
primordiais como conceito de mãe, imagens espontaneamente e temas
semelhantes aos da mitologia grega, mitologia egípcia, entre outras culturas
que nos são passadas de gereções em gerações.
Processo de Individuação: processo de desenvolvimento da personalidade pela diferenciação psicológica do eu. Processo que significava tornar-se um ser único, alcançar uma singularidade profunda, tornando-nos o nosso próprio Si-mesmo.
Self: O Eu, o arquétipo da totalidade e o centro regulador da psique.
Referências
WOODMAN, Marion. A Feminilidade Consciente. São
Paulo. Paulus, 2003.
Classificação das Doenças
Mentais: DSM-IV. Disponível em <http://www.psicosite.com.br/cla/d_alimentar.htm>.
Acesso em 01 out 2012.
Disponível em <http://www.salves.com.br/j-gloss.htm>.
Acesso em 02/12/2012.
Disponível em <http://www.pucsp.br/clinica/publicacoes/boletins/boletim20_11.htm>.
Acesso em 02/12/2012.
Simone
Aparecida Baldavia Girotto
Psicóloga





